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A Janela: De volta com reflexões sobre ética, cuidado e conexões humanas

17 de set. de 2025
6 min de leitura

Por onde andei?


Os últimos meses têm sido intensos e transformadores. 


Estou dedicada à escrita do meu primeiro livro solo - uma jornada completamente diferente das minhas experiências anteriores com obras coletivas. 


A complexidade e a profundidade deste projeto têm exigido um mergulho interior que não imaginava.


Paralelamente, sigo envolvida em projetos que me apaixonam profundamente: aqueles que criam conexões e constroem pontes de valor entre pessoas, times e desafios organizacionais. 


Tenho tido o privilégio de trabalhar com parceiros incríveis como L'Oréal, Supergasbras, Grupo Boticário, ONS - Operador Nacional do Sistema Elétrico e outros.


A curadoria do palco Humanare e do Rio Innovation Week também está a todo vapor! O evento terá como tema central Olhar através da Ética - um assunto que nunca foi tão necessário discutir.


Estamos em meio a conversas inspiradoras com profissionais brilhantes como Edu Valladares (aliás, lançou seu livro CriaWay, essa semana, na Livraria da Travessa , fica a dica!) Karen Miura, Jandaraci Araujo, Jéssica Simões, Gigi Barreto e tantos outros estão dando vida à narrativa deste ano.


Quando a vida nos atravessa


Em meio a todos esses projetos profissionais, fui atravessada por uma experiência pessoal que colocou em xeque tudo o que penso, sinto e faço. 


Minha mãe, de 84 anos, portadora de Alzheimer, foi encontrada perdida nas ruas de Lisboa, expondo-se a graves perigos.


Este incidente revelou falhas profundas no sistema de cuidados do lar onde ela estava: registros inadequados de entradas e saídas, ausência de planos de mitigação de riscos.


O mais chocante foi perceber que, em vez de aprimorar as medidas de segurança, a solução proposta foi restringir sua liberdade e a alternativa extrema de imobilizá-la numa cadeira. 


Quando expressamos nossas críticas e preocupações, estas foram recebidas como ameaças, não como um chamado à parceria para melhorar os cuidados. 


É desesperador imaginar que isso aconteça com uma idosa que tem uma família presente - uma filha que a visita com frequência, que a leva para tomar café, ir ao cinema ou simplesmente vive pequenos momentos durante a semana. 


Nos finais de semana passeiam, viajam, compartilham programas culturais que estimulam e aproximam. 


Imaginem o que acontece com os que não têm um acompanhamento familiar próximo?


O fato é que parei de pensar no Residencial Sénior como uma segunda família e entendi que é apenas mais uma empresa.


E, que estava revivendo uma história infeliz que todos conhecemos de cor: Lideranças infantilizadas emocionalmente que buscam culpados e ficam fixadas nos erros, não nas causas e na abertura de escutas para soluções.


Convivemos com o medo do erro e com a negação de nossa parte em processos insalubres. 


Achamos que está fora de nosso alcance construir o ambiente em que queremos viver e trabalhar. Nos conformamos.


O relatório State of the Global Workplace 2023 da Gallup mostra que apenas 23% dos funcionários globalmente se sentem engajados no trabalho, enquanto 59% estão "silenciosamente desistindo" - presentes fisicamente, mas sem entusiasmo ou conexão com seu trabalho. 


Estes dados refletem a profunda desconexão entre os valores declarados e as práticas reais nas organizações.


O caminho da autoconsciência: ser, refletir, transformar


Tenho aprofundado meus estudos em autoconsciência nas dimensões da auto-observação e da autorreflexão para lidar com nossos desafios. 


O quanto a dimensão do SER dos Inner Development Goals não é apenas o ponto de partida, mas o caminho e o ponto de chegada.


Reconhecer nossas inconsistências e incoerências muitas vezes pode ser percebido como caminho de crítica destrutiva, mas pode ser o oposto.


Perceber que nós e quem convivemos estamos em processo de amadurecimento emocional nos permite ser mais compassivos conosco e com nossas relações.


Ainda nos portamos como crianças feridas e queremos recompensas para nossa dor, por isso sacrificamos nossa integridade física, moral e emocional para alcançar metas, reduzir custos, sermos indispensáveis.


O que podemos fazer para nos reconectar com nossa humanidade e reconhecer a dos outros?


Como podemos construir novos patamares éticos nas empresas e na sociedade?


Ética do cuidado: teoria e prática


Esta experiência dolorosa me fez refletir profundamente sobre o tema que estamos abordando no Rio Innovation Week: a ética. 


Como falamos de ética nas organizações quando falhamos em aspectos tão fundamentais do cuidado humano?


A ética não é apenas um conceito teórico para debates acadêmicos ou corporativos.

Ela se manifesta nas pequenas e grandes decisões do dia a dia, especialmente quando lidamos com pessoas em situação de vulnerabilidade.


Percebo agora, mais do que nunca, que os princípios que defendemos profissionalmente devem se refletir em todas as esferas da vida.


A coerência entre discurso e prática é o verdadeiro teste de nossos valores. 

Quais são as relações que construímos com nossos clientes (externos e internos) e com nossos parceiros e fornecedores?


Como os líderes tratam seus colaboradores e como os mesmos se sentem no trabalho ou no serviço que entregam ao mundo? 


Por que paredes adesivas com valores organizacionais, celebrações de aniversário na firma, metas batidas não são o suficiente para criar ambientes seguros e prósperos?


Liderança humanizada: dados que não podemos ignorar


Esta reflexão sobre ética e cuidado me leva diretamente ao tema da liderança humanizada, algo que venho estudando e aplicando em meus projetos. 


E não se trata apenas de uma abordagem filosófica - os dados comprovam sua eficácia.

A pesquisa State of the Global Workplace 2022 (Gallup) mostra que equipes com líderes que priorizam o bem-estar e o desenvolvimento dos colaboradores apresentam 23% mais produtividade e 18% menos rotatividade. 


Estes números não são coincidência - são o resultado direto de ambientes onde as pessoas se sentem valorizadas e respeitadas.


Um estudo da McKinsey & Company (2021) revelou que organizações com culturas inclusivas e éticas têm 35% mais probabilidade de superar financeiramente seus pares.

A ética, portanto, não é apenas "fazer o certo" - é também uma estratégia de negócios inteligente.


O Project Oxygen do Google identificou que os melhores gestores são bons coaches,  focam em macrogestão, criam ambientes inclusivos e demonstrarm interesse genuíno pelo bem-estar da equipe. 


Não por acaso, estas são todas características de uma liderança humanizada e ética.


"A vulnerabilidade não é vencer ou perder. É ter a coragem de mostrar-se quando não se pode controlar o resultado." Brené Brown

Esta coragem é o que diferencia líderes que apenas gerenciam, dos líderes que verdadeiramente transformam.


Vejo paralelos claros entre a situação que vivi com minha mãe e os desafios organizacionais.


Em ambos os casos, a falta de uma abordagem humanizada e ética leva a falhas sistêmicas que prejudicam as pessoas mais vulneráveis. 


E, a solução passa por lideranças que priorizem genuinamente o cuidado, a transparência e a responsabilidade.


"A verdadeira medida de uma sociedade pode ser encontrada em como ela trata aqueles que estão em situação de maior vulnerabilidade." - Mahatma Gandhi

Da teoria à prática: a atualização da NR-1 e o risco do esvaziamento


A NR-1 está em alta, empresas correm para mostrar intencionalidade de atender a pauta da saúde mental.


Pessoas estudam para se tornarem especialistas e aproveitarem a onda, muito se fala e mostra, mas o que se faz efetivamente?


Esta atualização da norma regulamentadora, que trata do gerenciamento de riscos ocupacionais, representa uma oportunidade de ouro para as organizações demonstrarem seu compromisso real com o bem-estar das pessoas.


No entanto, corremos o risco de ver a NR-1 seguir o mesmo caminho de enfraquecimento que testemunhamos com a pauta de justiça, equidade, diversidade e inclusão em muitas organizações: muito discurso, pouca prática transformadora.


Como podemos regenerar e avançar?


Como evitar que temas fundamentais como saúde mental, bem-estar e segurança psicológica se tornem apenas mais um item de checklist corporativo, sem mudanças reais na cultura e nas práticas organizacionais?


Reconectando os pontos


Esta edição da newsletter marca meu retorno a este espaço de troca e reflexão. 


Pretendo compartilhar mais sobre minha jornada com o livro, os aprendizados dos projetos organizacionais e, principalmente, as reflexões que a vida tem me proporcionado sobre ética, cuidado e conexões humanas.


Convido vocês a refletirem comigo:

✔️ Como aplicamos na prática os valores que defendemos? 

✔️ Como cuidamos dos mais vulneráveis? 

✔️ Como construímos organizações e sociedades verdadeiramente éticas?


Agradeço por continuarem comigo nesta jornada. 


A Janela está aberta novamente, e espero que as paisagens que vislumbraremos juntos nos inspirem a ser e fazer melhor.


Se  não nós quem? Se não agora, quando?


Com carinho, Adriana Schneider


 
 
 

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